História e Património Cultural
Crónicas de vida, arquitetura sacra e a valorização do legado material da família em Itália e Argentina.
O Padroado Eclesiástico
A historiografia da cidade de Vigevano, enclave estratégico na geopolítica do ducado de Milão, não pode ser dissociada das trajetórias das suas famílias patrícias.
Entre estas, os Ardizzi, os Pozzo e a sua eventual confluência no ramo Pozzo Ardizzi, representam um caso paradigmático de como a nobreza local instrumentalizou o ius patronatus (direito de padroado) para consolidar o seu estatuto social, perpetuar a sua memória e assegurar a salvação espiritual.
Esta secção apresenta uma investigação exaustiva sobre as igrejas e espaços sacros ligados a estas linhagens: Santa Maria intus vineas (Madonna di Sotto), Santa Maria Madalena, São Francisco, São Cristóvão, Santo Ambrósio, São Julião, a Irmandade de São Jerónimo, e a sua projeção na basílica romana de Santa Maria Sopra Minerva.
A investigação centra-se na premissa fundamental da unidade genealógica, corroborada por fontes primárias, que identifica os Ardizzi e os Del Pozzo (ou De Puteo) como uma única entidade corporativa e biológica, operando sob diferentes cognomes conforme o ramo ou o contexto geográfico, mas unificados sob uma estratégia patrimonial comum.
O objetivo desta investigação é dissecar a "infraestrutura devocional" da família. Não nos limitaremos a um inventário de edifícios; antes, examinaremos como cada igreja, capela e altar funcionou como um dispositivo de legitimação social, um arquivo de memória dinástica e um veículo para a salvação eterna.
Através da transcrição crítica de diferentes manuscritos, da análise de inventários de relíquias e da reconstrução arqueológica de espaços desaparecidos, revelar-se-á uma estratégia familiar consistente: a fusão da identidade onomástica com a identidade sacra.
1. Ecclesia Sanctae Mariae Intus Víneas (Santa Maria Intus Víneas)
Identificação e Localização
Vigevano não foi simplesmente o local de origem biológica da família; funcionou como o laboratório político e social onde se ensaiaram as estratégias de legitimação que posteriormente seriam exportadas para Roma e para o Reino de Nápoles.1 A análise estratigráfica das suas fundações religiosas nesta cidade revela uma evolução consciente desde a piedade rural e monástica para a ostentação urbana e cortesã, paralela ao próprio desenvolvimento de Vigevano como residência favorita dos duques Sforza.
No estrato mais profundo da memória familiar encontra-se a igreja de Santa Maria Intus Víneas (Santa Maria dentro das vinhas), conhecida popularmente como Madonna di Sotto ou Santa Maria di Sotto, que representa o vínculo fundacional da família com a terra e a antiguidade pré-comunal.
Esta igreja situa-se, significativamente, fuora della terra (fora das muralhas da cidade). Esta localização não é casual; corresponde a uma tipologia de santuários cemiteriais e rurais que serviam como pontos de referência na paisagem agrária medieval, anterior à expansão urbana do século XIV.2
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As fontes indicam que a sua fundação precede o ano 1000, aparecendo já em documentos de 1202 como dependência (cella) do mosteiro cisterciense de San Maiolo di Pavia. Este vínculo monástico confere-lhe uma legitimidade de antiguidade que precede as estruturas de poder secular dos Visconti.3
1418: O Evento Catalisador
O Papa Martinho V, de regresso do Concílio de Constança (que pôs fim ao Cisma do Ocidente), detém-se para orar nesta humilde igreja rural.4 Este ato transforma o local numa "relíquia geográfica", convertendo-o num monumento dinástico carregado do capital espiritual do papado pós-conciliar.
A família Ardizzi, demonstrando uma aguda visão política, assumiu o giuspatronato (direito de padroado) pouco depois, em 1424. Simone del Pozzo, na sua crónica, enfatiza este vínculo, descrevendo a igreja como pertencente aos "Principi delli Nobili del Pozo et antichi". Este texto é crucial: ao denominar os patronos "Principais dos Nobres do Pozzo e antigos" em referência a esta igreja dos Ardizzi, o cronista valida a identidade partilhada de ambos os ramos, cuja fusão formal dos apelidos num novo composto também deve ter ocorrido nessa época, durante a primeira metade do século XV.
1424: A Intervenção Ardizzi, Um Restauro Programático
Seis anos após a visita papal, a família Ardizzi formaliza o seu ius patronatus e vai financiar uma reconstrução total do edifício. Esta intervenção não foi uma simples reparação de manutenção; implicou uma reformulação estilística que, segundo as descrições arquitetónicas, dotou o edifício de uma aparência que evoca um "templo da antiguidade".
"Hoc templum Beatae Mariae Virginis intus vineas, vetustate collapsum, Gens Ardizzia pietate mota restauravit anno MCCCCXXIV."
Tradução:
"Este templo da Beata Virgem Maria dentro das vinhas, colapsado pela antiguidade, a família Ardizzi, movida pela piedade, restaurou no ano 1424."
Análise Arquitetónica e Semiótica
Fachada Anómala: Apresenta um pórtico tetrástilo (quatro pilastras) que sustenta um tímpano triangular. Esta configuração é uma citação direta e precoce da arquitetura templária clássica (templum), absolutamente invulgar no gótico rural lombardo.6 A estrutura exterior evoca um templo clássico romano, uma anomalia estilística que distingue radicalmente a capela das construções rurais contemporâneas.
Interpretação Arquitetónica e Histórica: É um ato de "humanismo arquitetónico" que procura ligar a linhagem Ardizzi não com a tradição medieval feudal, mas com uma nobilitas romana imaginada, mais antiga e prestigiada. É a fabricação de uma antiguidade autóctone.7 Para uma família que no século XV procurava afirmar a sua nobreza imemorial, adotar uma linguagem arquitetónica que citava Roma — em vez do vernáculo medieval — era uma declaração de origens pré-feudais.
Interior: Planta orientada para uma abside semicircular, coberta com um teto de caixotões (soffitto a cassettoni).8
Programa Pictórico: As fontes e restos mencionam um ciclo pictórico de alta qualidade, ligado a mestres da corte Sforza: Zanetto Bugatto (retratista oficial), Bonifacio Bembo, Leonardo Ponzoni.9
Iconografia Chave (O Cavalo Bardado): Fragmentos de um fresco perto do portal mostram um "cavallo bardato" (cavalo com armadura ou gualdrapas de guerra).10 Na iconografia do Quattrocento, o cavalo de guerra não é um elemento decorativo. É o atributo privativo dos equites ou milites, a nobreza de espada.11 A sua presença na "pele" pública da igreja é uma mensagem clara: os Ardizzi não são burgueses enriquecidos, mas sim nobres com tradição e função militar, o estatuto mais alto na hierarquia feudal sob os Visconti e Sforza.
Perdurabilidade do Culto: Um graffiti com a data "1739" documentado nas paredes interiores prova que o local continuou a ser um foco de devoção e peregrinação local mais de três séculos após a intervenção Ardizzi, demonstrando o sucesso a longo prazo do seu investimento como dispositivo de memória.12
2. A Igreja dos Santos Jerónimo, Julião e Maria Madalena
Identificação e Localização
A Fundação e a Certidão de Nascimento Jurídica de "Pozzo Ardizzi": Fundada em 1421 e consagrada solenemente a 13 de dezembro de 1440.13 A construção desta igreja intra moenia (dentro das muralhas), especificamente em "lo Corso" (a rua principal), foi o cenário físico onde se operou a fusão onomástica definitiva dos ramos familiares e marca a transferência do centro de gravidade da família para o coração político de Vigevano e o futuro administrativo. O manuscrito de Simone del Pozzo (1550) é a "certidão de nascimento" documental do apelido composto Pozzo Ardizzi através desta fundação.14
I. A Controvérsia da Fundação (1421-1440)
A historiografia clássica e a investigação notarial moderna apresentam duas versões divergentes sobre a autoria do templo. Este conflito não é menor, pois define se a igreja foi uma iniciativa horizontal (entre irmãos) ou vertical (dinástica).
A. A Tradição Literária (1648)
Fonte: Egidio Sacchetti, Vigevano Illustrato.
Sacchetti atribui a fundação a uma colaboração fraterna, afirmando explicitamente que "Abrahamo, com o irmão, Antonio, foram os fundadores". Esta versão, perpetuada pelo Dizionario Biografico degli Italiani (Treccani), sugere uma estratégia de prestígio partilhado.
B. A Evidência Notarial (Moderno)
Fonte: E. Roveda (Metamorfosi...) y P. Bellazzi.
Os registos de propriedade contradizem a versão literária. Enrico Roveda identifica Antonio Ardizzi ("O Pai") como o iniciador legal em 1421. Pietro Bellazzi refina esta tese documentando uma sucessão: a obra foi "dotada por Antonio Ardizzi e por seu filho Abramo".
II. O "Fideicommissum": Certidão de Nascimento Jurídica
Para além dos tijolos, a Igreja de São Jerónimo representa a cristalização legal da linhagem "Pozzo Ardizzi". O cronista e jurista Simone del Pozzo (1550) revela nos seus manuscritos a existência de um mecanismo legal concebido para proteger esta unidade.
- O Instrumento Legal: Simone menciona um "fideicommissum tacitum" (fideicomisso tácito). Este contrato jurídico vinculava as propriedades e o padroado da igreja à descendência masculina perpétua, impedindo a dispersão dos bens.
- O Efeito Dinástico: Foi através deste fideicomisso sobre a capela que os diferentes ramos (os descendentes de António I, António II e Abraão) ficaram "ligados" sob uma identidade comum. A igreja funcionou, de facto, como a instituição que fundiu os interesses dos Ardizzi com a antiguidade dos Pozzo.
"S. Hieron.o et S.ta Maria Magdelena. Questa chiesa fu fundata dal q. d. Anto. Ardic. del Pozo Ardicio padre che fu del q. d. Abraam. gli ambi dui furno homini grandi..."
Tradução:
"São Jerónimo e Santa Maria Madalena. Esta igreja foi fundada pelo falecido senhor Antonio Ardicio del Pozzo Ardicio, pai que foi do falecido senhor Abraão. Ambos foram homens grandes..."
Insight de Segunda Ordem: A redundância no nome "Antonio Ardicio del Pozo Ardicio" não é um erro do escriba. É uma fórmula jurídica deliberada para amalgamar os direitos sucessórios e de padroado dos ramos Ardizzi e Pozzo.15 Ao fundar a igreja sob esta nomenclatura, António assegurava que as missas perpétuas e os direitos de sepultura beneficiassem toda a agnação estendida. Além disso, a localização em "el Corso" indica uma intenção de visibilidade pública: a piedade dos Ardizzi devia ser vista por toda a cidadania.
Se Santa Maria Intus Víneas olhava para o passado agrário, a fundação urbana da Igreja dos Santos Jerónimo, Julião e Maria Madalena estava firmemente orientada para o presente político; foi a declaração de poder burguês e urbano da família no pleno Renascimento.
Significado da Dedicação Múltipla (Análise Teológico-Social)
A tripla invocação não é caótica, mas sim uma estratégia de cobertura social:16
- São Jerónimo (Hieronymus): Padroeiro dos tradutores, exegetas, humanistas e cardeais. Apela diretamente à vocação intelectual e administrativa do ramo familiar que ascendia na burocracia ducal e papal. É o santo "espelho" dos Ardizzi letrados.
- Santa Maria Madalena e São Julião: São devoções populares, hospitalares e penitenciárias. Atraíam o vulgo urbano e respondiam a funções assistenciais.
Assim, a igreja servia simultaneamente como salão da elite culta e como centro devocional massivo, maximizando o capital social e a visibilidade da família em todos os estratos de Vigevano.
O Tesouro Móvel: O Relicário de Abraão Ardizzi (1444)
O filho do fundador, Abraão Ardizzi, enriqueceu a fundação com objetos de valor incalculável.17
Ficha Técnica de Conservação-Restauro:
Relicário processional em forma de cruz patriarcal (Reliquiario a croce). Cobre dourado (rame dorato) mediante técnica de douração a mercúrio, com decoração relevada e vazada. Datado de Junho de 1444 com inscrição autêntica contemporânea. Autoria atribuída a "Bottega lombarda", mas com fortes influências e provável execução de ourives da zona médio-adriática (Vêneto/Marcas), coerente com a região de Senigallia.18
A análise estilística da peça indica a sua manufactura em oficinas da zona médio-adriática, o que demonstra um fluxo de capital simbólico: Abraão extraía recursos e prestígio da sua sede episcopal no Adriático para os reinvestir no seu centro patrimonial de origem em Vigevano.19
Inscrição Original: "-- DA SPALLA S. MAXIMINI --" (Do ombro de São Maximino).
São Maximino é, segundo a Legenda Aurea, o bispo que acompanhou Maria Madalena à Provença. A relíquia não é aleatória: cria uma coerência hagiográfica perfeita dentro de uma igreja dedicada à Madalena, elevando o seu estatuto de oratório privado a centro de peregrinação menor.20
Interpretação Geopolítica: Esta breve "autêntica" tem profundas implicações geopolíticas. São Maximino é um santo provençal. A posse desta relíquia por parte de Abraão Ardizzi não é apenas devocional; é política. Abraão era embaixador junto de Renato de Anjou, Conde da Provença. A relíquia é um presente diplomático ou uma aquisição estratégica que liga os Ardizzi à casa real de Anjou, legitimando o seu estatuto através da ligação com o "sangue sagrado" da Provença.21
Decadência e Conflito (1539-1801): A história desta igreja ilustra dramaticamente o colapso do sistema feudal e eclesiástico. Em 1539, os tutores dos herdeiros Ardizzi cedem o uso da igreja à recém-formada Confraternita de' Loici, cujos membros vestiam hábito "tanè scuro".22 Este documento marca o início de uma "convivência conflituosa" entre o padroado nobiliário e uma corporação burguesa.23
1800-1801: Supressão napoleónica. Em 1801, o edifício foi vendido a um carniceiro de ovelhas, Carlo Casale, por um "preço vilíssimo" (dizia-se que as telhas valiam mais do que o edifício inteiro). O espaço sagrado foi profanado e convertido em habitações de aluguer e apriscos para ovelhas, apagando fisicamente o monumento central da união Ardizzi-Pozzo do tecido urbano.24
3. Ocupação do Espaço Sacro Institucional
A estratégia de "ocupação espacial" dos Ardizzi-Pozzo completou-se com intervenções críticas que inseriram a família no coração litúrgico da cidade e criaram infraestruturas espirituais de proteção.
Capela de San Cristoforo (São Cristóvão) na Catedral
Localizada perto da "Porta da Valle". A sua importância foi tal que o bairro circundante tomou o nome de San Cristoforo. A fundação por Giuliano Ardicio, descrito nos índices de 1550 como "Magnífico", sublinha a integração da família na elite suprema da cidade, ocupando o espaço sagrado mais prestigiado: a sede do bispo.25
São Cristóvão é o padroeiro dos viajantes (viatores) e protetor contra a morte súbita sem confissão. Para uma família cujos membros eram embaixadores (António "o Pai"), prelados itinerantes (Abraão) e comerciantes de alto nível, esta invocação funcionava como uma "apólice de seguro espiritual" para as suas constantes e perigosas deslocações. A localização liminar (junto a uma porta da igreja/cidade) reforça simbioticamente esta função de proteção no limiar, no trânsito.26
Pegadas Heráldicas Dispersas
São Francisco: Duas targhe (placas) com o brasão Ardizzi sobre a chave do arco de duas janelas angulares, indicando financiamento dessa parte da fábrica gótica. A localização de brasões nas chaves dos arcos das janelas implica que a família financiou a construção ou o vitral dessa secção específica da igreja.27
São Juliano Mártir (Scaldasole): Outras duas placas semelhantes sobre arcos de janelas. Evidencia uma estratégia de "padroado disperso" ou "marcação visual" de múltiplos nós da geografia sacra local, não uma concentração num único mausoléu. Isto sugere que os Ardizzi não concentravam todos os seus recursos numa única capela, mas marcavam visualmente múltiplos pontos nodais da geografia sacra de Vigevano.28
4. Igreja de São Francisco, Vigevano
Identificação e Localização
O Panteão de Refúgio e a Translatio da Memória
A história material dos Ardizzi-Pozzo em Vigevano conclui-se com uma lição de resiliência patrimonial. A supressão napoleónica provocou a destruição física da igreja matriz de Santa Maria Madalena. No entanto, a memória da família não foi apagada. Graças à previsão institucional de vincular a sua identidade não só aos muros, mas a objetos móveis e arquivos, o património simbólico pôde ser objeto de uma translatio (transladação sagrada) para a igreja de São Francisco.29
Fonte: Wikipedia
Igreja gótica lombarda, fundação franciscana original de 1379, radicalmente reconstruída entre 1465-1470.30 Albergou a Capela da Imaculada Conceição, concebida por Donato Bramante em 1494 (infelizmente demolida em 1847).31 Isto situava a família no ambiente do mecenato artístico mais avançado da corte sforzesca.
Função como "Arca de Salvação" (Pós-1801): Após a destruição da Madalena, São Francisco acolheu o património móvel dos Ardizzi:
- A Confraternita de' Loici, com os seus arquivos e objetos (guardados num armário sobre a sacristia).32
- O Relicário de 1444 (transferido em 1847).33
- Possivelmente outras relíquias no Scurolo, cripta-capela elevada típica lombarda de alta sacralidade. A igreja possui um Scurolo, um espaço de alta sacralidade que funcionou como câmara do tesouro para estas relíquias transferidas.34
Conclusão Estratégica: Esta translatio demonstra a sofisticação da estratégia patrimonial familiar. Ao investir não só em edifícios, mas em objetos móveis, arquivos e direitos de irmandade, asseguraram que quando um suporte material (o edifício) foi destruído, a memória e a identidade pudessem migrar e sobreviver noutro contentor institucional.35 É uma lição de resiliência histórica. Este "panteão de refúgio" preservou a continuidade histórica quando a arquitetura original falhou, demonstrando a eficácia de uma estratégia de investimento diversificada no sagrado: edifícios, relíquias, títulos e textos, assegurando que se um suporte fosse destruído, a memória pudesse migrar para outro.
5. Basílica de Santa Maria sopra Minerva (Roma)
Identificação e Localização
A presença da família em Roma, primeiro no século XV e posteriormente com maior intensidade no XVII, não deve ser interpretada como um fenómeno de emigração, mas sim de extensão corporativa. Roma, na sua qualidade de Caput Mundi, oferecia uma plataforma de validação universal que a corte ducal de Vigevano não podia conceder.36
Biografia e Cargo: Filho de António Ardizzi "o Pai" (embaixador). Ocupou o cargo de Abreviador Apostólico (Scriptor Apostolicus ou Abbreviatore de Parco Maggiore) na Chancelaria Pontifícia.37 Não era um notário menor. Os abreviadores redigiam as minutas das bulas papais, requeriam um latim ciceroniano impecável e profundos conhecimentos de direito canónico e teologia. Era um posto de enorme influência política, acesso direto ao Papa e altíssimo prestígio intelectual, reservado à elite humanista da cristandade. Este cargo situava António no centro do humanismo romano.38
A Tumba em Santa Maria sopra Minerva: Significado do Local: Principal igreja da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) em Roma, sede do tribunal da Inquisição Romana. Panteão da elite curial (papas Médici Leão X e Clemente VII, Fra Angélico).39 A escolha não é casual: os dominicanos guardavam também a igreja de São Pedro Mártir em Vigevano, mostrando uma coerência devocional. Ser enterrado aqui era uma declaração inequívoca de pertença à aristocracia espiritual e administrativa global.40 O seu enterro na Minerva integrava a família na "República das Letras" muito antes de Cassiano dal Pozzo fundar o seu Museu Cartáceo.
Testemunho Ocular Definitivo (1529): A verificação da Insígnia do Poço na sua lápide é a prova arqueológica da unidade da linhagem.41 Este dado visual é a prova definitiva da identidade transregional. Em Roma, um "Ardizzi" não usou um brasão novo, mas sim o brasão ancestral dos Pozzo de Vigevano. O brasão atuava como um passaporte visual, permitindo aos membros da família reconhecerem-se e serem reconhecidos na capital da cristandade.42
Rede Lombarda em Roma: Uma crónica do século XVII situa-o em eventos de alto perfil juntamente com outros nobres lombardos:
Comentário: Lista de gentis-homens lombardos pacificando-se perante a autoridade papal (Vice-legado), demonstrando o estatuto político de António Ardizzi fora de Vigevano.44
Tabelas de Síntese Patrimonial
Tabela 1: Síntese Comparativa dos Espaços Sacros e seu Estado
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| Edifício / Instituição | Família Vinculada | Tipo de Intervenção | Objeto / Elemento Chave | Estado Atual |
|---|---|---|---|---|
| S. Maria Intus Vineas | Ardizzi | Restauro total (1424) | Frescos (Bugatto/Bembo), Cavalo Bardado | Propriedade municipal, ruína ("Péssimo") |
| S. Maria Magdalena / S. Hieron | Ardizzi / Pozzo | Fundação (1421), Fusão nominal | Relicário de S. Maximino (1444) | Demolida (1800), transferência de objetos |
| San Francesco | Ardizzi | Padroado parcial (séc. XV), Refúgio pós-1801 | Brasões nas janelas, Relicário transferido | Freguesia ativa, panteão de refúgio |
| São Cristóvão (Antiga) | Pozzo | Investigação de origens (séc. XVI) | Padroado histórico | Demolida (c. 1940), foi reduzida a cabine de impostos |
| São Cristóvão (Nova) | Pozzo | Capela familiar em S. Pietro Martire | Estandarte da Santíssima Trindade (séc. XVIII) | Freguesia ativa (ex-convento dominicano) |
| São Juliano (Scaldasole) | Ardizzi | Decoração arquitetónica | Placas com brasão | Freguesia ativa |
| S. Maria Sopra Minerva (Roma) | Ardizzi / Dal Pozzo | Presença funerária/civil | Tumba com "Insígnia do Poço", inscrições | Basílica ativa |
Tabela 2: Georreferenciação e Topografia Sagrada
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| Igreja / Edifício | Cidade/Região | Coordenadas | Vínculo Familiar e Observações |
|---|---|---|---|
| S. Maria Intus Vineas | Vigevano (PV) | 45°18'25.99 "N 8°51'27.11"E | Estrato rural antigo, pórtico classicista, fresco do cavalo bardado. Legitimação de antiguidade. |
| S. Maria Maddalena (S. Hieron) | Vigevano (PV) | 45°19'02.0" N 8°51'28.0"E | Fundação urbana principal, sede do fideicomisso onomástico "Pozzo-Ardizzi". Local da fusão legal. |
| San Francesco | Vigevano (PV) | 45°19'02.5" N 8°51'15.8"E | Panteão de refúgio pós-napoleónico. Aloja o relicário de 1444 e arquivos da irmandade. Brasões heráldicos. |
| Capela S. Cristoforo (Duomo) | Vigevano (PV) | 45°19'01"N 8°51'32"E | Padroado dentro da sede episcopal. Símbolo de proteção para viajantes (diplomáticos). |
| S. Maria sopra Minerva | Roma (RM) | 41°53'53"N 12°28'42"E | Tumba de António Ardizzi (Abreviador Apostólico) e Cassiano dal Pozzo. Prova heráldica da unidade da linhagem. |
Tabela 3: Cronologia de Fundações e Eventos Chave
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| Ano | Localização | Evento / Fundação | Protagonista Principal | Significado Estratégico |
|---|---|---|---|---|
| 1202 | Vigevano | Existência de S. Maria Intus Víneas | Monges Cistercienses | Vínculo com antiguidade pré-comunal. |
| 1418 | Vigevano | Visita do Papa Martinho V a Intus Víneas | Papa Martinho V | Sacralização do espaço. |
| 1421 | Vigevano | Fundação de SS. Girolamo, Giuliano e Maddalena | António Ardizzi ("o Pai") | Ato fundacional da união Ardizzi-Pozzo no centro urbano. |
| 1424 | Vigevano | Aquisição do Giuspatronato de Intus Víneas | Família Ardizzi | Privatização da memória histórica local. |
| 1444 (Jun) | Vigevano | Doação do Relicário de Prata | Abramo Ardizzi | Conexão angevina e fluxo de capital simbólico Adriático-Lombardia. |
| 1453 | Abruzos | Concessão do Feudo de Colonnella | Abraão Ardizzi / Rei Renato | Ascensão à nobreza feudal. |
| c. 1500 | Roma | Morte e Tumba em S. Maria sopra Minerva | António Ardizzi (o Jovem) | Validação heráldica ("Insígnia do Poço") na Cúria. |
| 1539 | Vigevano | Cessão da Madalena à Confraternita de' Loici | Tutores dos herdeiros Ardizzi | Início da gestão partilhada e conflito com corporação burguesa. |
| 1550 | Vigevano | Redação do Libro d'Estimo Generale | Simone del Pozzo | Fixação documental da memória e fusão familiar. |
| 1801 | Vigevano | Demolição de S. Maria Maddalena | Governo Napoleónico | Crise material; início da translatio para S. Francesco. |
Fontes e Bibliografia (Estilo Chicago -- Humanidades)
- Lubkin, Gregory. A Renaissance Court: Milan under Galeazzo Maria Sforza. Berkeley: University of California Press, 1994.
- Muir, Edward. Civic Ritual in Renaissance Venice. Princeton: Princeton University Press, 1981.
- Registos do Mosteiro de San Maiolo di Pavia, 1202. Archivio di Stato di Pavia.
- Brambilla, Carlo Stefano. La Chiesa di Vigevano. Milano: Camagni, 1669.
- Reconstrução baseada na crónica de Brambilla e Sacchetti.
- Análise arquitetónica baseada em observação direta e fotografias disponíveis no ICCD.
- Ackerman, James S. Distance Points: Essays in Theory and Renaissance Art and Architecture. Cambridge, MA: MIT Press, 1991.
- Relatório DGABAP, "SANTA MARIA INTUS VINEAS".
- Atribuições recolhidas na historiografia local do século XIX e XX, e em fichas ICCD.
- Relatório DGABAP e fotografias ICCD.
- Bertelli, Sergio. Il corpo del re: sacralità del potere nell'Europa medievale e moderna. Firenze: Ponte alle Grazie, 1990.
- Relatório DGABAP.
- Egidio Sacchetti, Vigevano Illustrato (Milano: Gio. Pietro Eustorgio Ramellati, 1648).
- Simone del Pozzo, Libro d'Estimo generale della città di Vigevano (manuscrito autógrafo, 1550).
- Grubb, James S. Provincial Families of the Renaissance. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1996.
- Duffy, Eamon. The Stripping of the Altars: Traditional Religion in England, 1400-1580. New Haven: Yale University Press, 1992.
- Ministero della Cultura, "Reliquiarlo di Abramo Ardizzi," scheda ICCD n. 0300001537.
- Análise estilística comparativa baseada em catálogos de ourivesaria do norte e centro de Itália.
- Bourdieu, Pierre. The Field of Cultural Production. New York: Columbia University Press, 1993.
- Jacobus de Voragine, Legenda Aurea. Ed. Giovanni Paolo Maggioni. Firenze: SISMEL, 1998.
- Geary, Patrick J. Furta Sacra: Thefts of Relics in the Central Middle Ages. Princeton: Princeton University Press, 1978.
- Instrumento notarial de Claudio de Ferrari, 21 agosto 1539, Archivo Notarile di Vigevano.
- Black, Christopher F. Italian Confraternities in the Sixteenth Century. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
- Atas de supressão napoleónica, Archivo di Stato di Milano.
- Simone del Pozzo, Libro d'Estimo generale.
- Webb, Diana. Patrons and Defenders: The Saints in the Italian City-States. London: Tauris Academic Studies, 1996.
- Società Storica Lombarda, Archivio Storico Lombardo. Descrição de janelas angulares e epigrafia (Série IV, Vol. XIX).
- Kucher, Michael P. The Water Supply System of Siena, Italy. New York: Routledge, 2005.
- Lowenthal, David. The Past is a Foreign Country. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.
- "Chiesa di San Francesco (Vigevano)," Wikipedia.
- Referências a Bramante em crónicas locais e bibliografia artística.
- Registos da Confraternita de' Loici no arquivo de São Francisco.
- Ficha ICCD e registos de São Francisco.
- Inferência histórica baseada na tipologia arquitetónica do Scurolo como câmara do tesouro.
- Lowenthal, David. The Past is a Foreign Country.
- Prodi, Paolo. The Papal Prince. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.
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- Partner, Peter. The Pope's Men: The Papal Civil Service in the Renaissance. Oxford: Clarendon Press, 1990.
- Hibbard, Howard. The Architecture of the Palazzo Borghese. Roma: American Academy in Rome, 1962.
- Partner, The Pope's Men.
- Relato de Simone del Pozzo sobre a sua viagem a Roma, 1529.
- Pastoureau, Michel. Traité d'héraldique. Paris: Picard, 1979.
- Crónica do século XVII, transcrição em coleção privada (cópia consultada na Biblioteca Apostolica Vaticana, fundo Barberini).
- Ibid.
A história da família na Argentina é uma história de migração, adaptação e trabalho na fronteira sul. Ao contrário dos monumentos de pedra em Itália, o património aqui construiu-se sobre a terra e o trabalho comunitário.
1. Ángela Laureana Pozzi ("La Negra")
A Enfermeira de Patagones (1907 - ?)
Ficha de Identidade
Eu chamo-me Ángela Laureana Pozzi, mas você ponha ‘La Negra Pozzi’ porque aqui toda a gente me conhece assim, pois não creio que muitos saibam o meu verdadeiro nome.
Nascida em Carmen de Patagones a 4 de julho de 1907, filha de José Ángel Pozzi (imigrante italiano) e Isabel Asejo (andaluza). Cresceu no campo "Las Cruces", perto do lugar "La Querencia", onde o seu pai tinha uma Estação de Posta para a Galera de Mora.
🍬 Anedota: O doce vermelho
"A chegada dos ‘carros altos’ de Pozzo Ardizzi... era uma grande festa... Naquela vez que eu tinha sete ou oito anos, vi que traziam umas latas de cores muito bonitas. Como eu não sabia ler... roubei uma! Quando a abrimos com o meu irmão Juan e provámos essa espécie de doce vermelho, começámos a fazer arcadas. Esse produto resultou ser ‘molho de tomate’. Para me livrar da prova do crime, fui a correr para além do curral e enterrei a lata. Ninguém soube nunca da minha travessura!"
🍫 Os Chocolatinhos de Gambino
"Outro dos visitantes muito esperados... era o senhor Maximino Gambino, de Bahía Blanca... Dom Maximino trazia-nos caixas inteiras de chocolatinhos e várias vezes para evitar ‘a partilha’, com o meu irmão Juan roubávamos-lhe alguma caixa e isso acabava sempre igual: um grande ataque com dor de barriga!"
Em 1919 a família mudou-se para a vila. "Precisando de aprender um ofício para o futuro, dediquei-me ao ‘bordado de roupa’ e a dar injeções. Aprendi tudo sozinha! ... Começaram a chamar-me para dar injeções de todas as partes da vila... Desde então e até agora, passei a ser simplesmente a ‘Negra’ Pozzi."
Trabalhou até depois dos 90 anos, ganhando a confiança absoluta dos médicos locais como o Dr. Koltik, Escudero e Luisito Gutvay.
2. Património Histórico: Carroça "La Pichona"
Esta enorme carruagem era propriedade da firma César Juan Bautista Pozzo Ardizzi, comerciante estabelecido em Patagones por volta de 1917.
Por volta de 1917, o casal chegou a Carmen de Patagones proveniente de Aparicio (Tres Arroyos). Traziam entre os seus pertences três carroças que iriam utilizar no seu trabalho de transporte de lãs e cereais.
📋 Ficha Técnica do Bem
Das três grandes carroças, a mais destacada era a maior, batizada "La Pichona". Existe uma tradição oral que indica que era a "mais pequena", um toque de humor crioulo dado o seu tamanho monumental.
Partilha méritos históricos com outras carroças famosas argentinas como "La Luz del Desierto" e "La Bienvenida".
A. Documentação Histórica
B. O Período de Esquecimento (2009)
Com o advento do caminho de ferro (1921) e das estradas, a redução de custos e a diminuição do tempo de viagem, "La Pichona" passou a descansar no lugar conhecido como "Cañada Honda". Em 1969 foi trazida novamente a Patagones como testemunho histórico. No entanto, após anos de abandono no terreno do Clube Hípico Fuerte del Carmen, o seu estado era crítico.
📰 Ler Crónica Completa: "O penoso abandono..."
O penoso abandono dos velhos armazéns ferroviários de Patagones
Por Carlos Espinoza para APP - 26 de julho de 2009
Condenados à destruição pelo efeito das chuvas, do vento e do sol; os nobres materiais com que foram construídos podiam resistir a todas as intempéries, mas o abandono finalmente venceu-os. Os carros de ontem, que transportaram tanta riqueza e esforço produtivo, hoje jazem como tristes ossadas nos arredores de Carmen de Patagones.
O testemunho de "Coro":
Para o primeiro propósito, a reparação da memória, foi entrevistado Francisco Aníbal "Coro" Ferría (95 anos), que foi mecânico do caminho de ferro. Ferría sentiu enorme pena na sua alma de ferroviário ao observar o estado ruinoso daqueles antigos locais do seu trabalho: "pensar que aqui fazíamos tantas coisas... e agora, que pena que não se usam para nada".
Durante a conversa... não faltou a recordação de penosos acidentes de trabalho, que custaram a vida de dois operários... "Um foi um rapaz Suracce, que foi apanhado por uma roda... e outro um tal Nardi, de Bahía Blanca, ficou preso pelo fole entre dois carros".
Depois o ferrocídio:
Esta lamentável realidade de abandono... faz parte do fenómeno que o historiador Juan Carlos Cena chama "o ferrocídio". Quando os ramais morreram, estas gigantescas construções caíram em desuso, como fantasmagóricas ossadas.
O que fazer em Patagones?
Com estes dados, finalmente, este cronista propõe a instalação de um sonho no imaginário popular dos maragatos. Trata-se de sonhar que nos velhos armazéns ferroviários se instale um museu dos meios de transporte, que permita resgatar do abandono a carroça "La Pichona" (que foi da firma Pozzo Ardizzi e hoje está castigada pelas intempéries no terreno do clube Fuerte del Carmen) e outras carruagens de grande valor histórico... Um sonho, por agora.
C. Gestão Legislativa (2004)
Expediente Nº 4084-4667/08 do Honorável Conselho Deliberativo. Projeto para declarar a carroça Património Histórico e solicitar o seu restauro.
📜 Ler Texto Completo do Projeto
VISTO: O notável deterioro que está a sofrer, pela passagem e intempéries do tempo, a carroça denominada “LA PICHONA”, que está depositada no terreno do Clube Hípico Fuerte del Carmen.
CONSIDERANDO:
QUE faz parte do Património Histórico de Carmen de Patagones.
QUE é uma das últimas carruagens do seu género, em relativo estado de conservação.
QUE é o testemunho de uma forma de transporte que faz parte da História do Partido de Patagones.
QUE deveria ser restaurada para evitar a continuação da deterioração.
QUE existem madeiras pertencentes à velha ponte ferroviária sobre o Rio Negro, que estariam disponíveis para serem utilizadas.
ARTIGO 1º: Recomendar ao Departamento Executivo que analise a possibilidade de realizar o restauro da carroça denominada “La Pichona”, prevendo para o efeito uma verba no Orçamento de 2005.
ARTIGO 2º: Analisar, através da área correspondente, a localização da carroça uma vez restaurada, em frente à estação de caminho de ferro, numa praçeta do Boulevard Juan de la Piedra, como símbolo de uma forma de transporte já desaparecida.
ARTIGO 3º: De forma.
(A moção foi aceite e foi incluída no orçamento de 2005, mas nunca foi aplicada nesse momento).
D. Processo de Restauro e Intervenção Técnica
A recuperação integral deste bem cultural foi custeada e gerida por Alberto "Cholino" Pozzo Ardizzi, empresário local e neto do pioneiro.
Os trabalhos técnicos foram executados pelo ferreiro artesão Dom Luis Esteban Facio e seus colaboradores na oficina "Remembranzas" (Viedma), que realizaram um trabalho artesanal de enorme qualidade para recuperar madeiras e ferragens originais.
📰 Ler Crónica: "Volta a viver..." (2010)
La Pichona, aquela histórica carroça de carga, volta a viver na oficina de Luis Facio
"A velha carroça de carga 'La Pichona'... está a ser reconstruída para a sua exposição num espaço público... É um trabalho artesanal de enorme qualidade... custeado por Alberto "Cholino" Pozzo Ardizzi, neto daquele pioneiro."
Luis Esteban Facio, de 83 anos, assinala: "Poder reparar ou reconstruir a La Pichona era a minha preocupação há pelo menos 6 anos... É um trabalho duro, intenso, mas dá-me uma enorme satisfação".
E. Valorização e Exposição
Hoje, "La Pichona" é um monumento vivo à história dos transportes. Em fevereiro de 2011, a imprensa celebrou o seu restauro total, destacando que partilha méritos históricos com outras duas carroças monumentais da Argentina: "La Luz del Desierto" e "La Bienvenida".
Geografia do Legado na Argentina
Locais-chave na rota da imigração e do assentamento.
LA PICHONA (Poema)
Por Miguel Ángel Lazarte
Está triste "La Pichona"
deitaram-na ao esquecimento.
Entre ferros retorcidos
entre escombros e entre ervas daninhas,
aquela que foi o orgulho
de César e de María
perdeu o seu valor
tiraram-lhe até a honra.
Ainda bate o seu coração
pois ainda não morreu.
O presente ferroviário
um dia lhe disse basta
e foi-se para "as casas"
no último puxão.
O futuro do camião
apagou a sua história nas pegadas.
Mudou os caminhos de terra
por descanso e por quietude
e nunca mais foi virtude
o seu destino de carroça.
"La Cañada" embalou-a
no seu regaço materno
e dezasseis cavalos zambros foram
experiente guarda de honra.
Tanto elogio recebeu
ao longo do seu sono,
dos pássaros, do vento,
das árvores, do Sol.
Aquele que sempre invejou
vinte e dois raios eternos!.
"La Pichona" está muito triste
e quer voltar à vila
Para os miúdos ser brincadeira
Lembrança para os graúdos.
Para todos estandarte
cheio de pegada e de Pátria.
"La Pichona" condenada
num mísero canto
quer que ouçam a sua voz
aqueles que nunca ouvem nada.
... para que me terão trazido
se me deixaram esquecida.
Fui feliz em "La Cañada"
fui feliz no caminho
e fui feliz no lugar
onde todos me admiravam.
Se hoje não sirvo para nada
entre lixo e detritos,
que me levem ao repecho
ou me vistam de mortalha...









































